Desde 3 de junho, quatro linhas de ônibus que ligavam Jaboatão dos Guararapes ao centro do Recife deixaram de circular no horário de pico. A medida, anunciada pelo consórcio operador como «ajuste de frota», pegou passageiros de surpresa. Em levantamento do Nirava com 52 entrevistas em pontos de embarque, o tempo médio de viagem subiu 12 minutos nas duas primeiras semanas.
«Eu pegava o 742 direto. Agora faço baldeação em dois pontos», contou Cleide Santos, auxiliar administrativa que mora em Piedade e trabalha no Derby. O relato se repete: não é só espera maior — é reorganização completa da rota diária.
Quais linhas foram afetadas
As linhas suprimidas ou reduzidas atendiam principalmente bairros de Jaboatão e Olinda com destino ao centro e à região portuária. Duas delas tinham frequência de 8 minutos no pico; hoje o intervalo nas linhas substitutas varia entre 15 e 22 minutos, segundo painéis observados em cinco dias úteis.
A justificativa oficial aponta queda de demanda pós-pandemia e custo de combustível. Sindicato de motoristas questiona o corte sem audiência pública prévia.
Novas rotas improvisadas
Passageiros desenvolveram três estratégias. A primeira: baldeação em terminais intermediários — mais tempo, mesmo custo de passagem. A segunda: migração para vans clandestinas em dois pontos identificados, o que levanta questão de segurança. A terceira: uso de aplicativo de transporte em dias específicos, quando o atraso compromete o emprego.
Em Olinda, moradores do bairro do Varadouro relatam que ciclistas aumentaram no corredor da Avenida Pan Nordestina — possivelmente passageiros que encontraram alternativa de curta distância.
O que os dados leves mostram
Cruzamos horários de chegada registrados por entrevistados com o GTFS disponibilizado pela prefeitura. Em 68% dos casos, a viagem ficou mais longa. Em 19%, permaneceu similar. Em 13%, houve redução — geralmente passageiros que antes faziam rota indireta e agora usam linha mais reta, embora com menos frequência.
Quando ônibus some, a cidade não para — ela se rearranja por caminhos piores ou mais caros.
Leitura do Nirava
Cortes de linha são decisão administrativa; o efeito é territorial. Recife já convive com desigualdade de acesso ao transporte público — suprimir corredores sem substituição equivalente empurra custo e tempo para quem menos pode escolher.
Vamos acompanhar se o consórcio restabelece frequência após reclamações formais. Se você foi afetado por mudanças de linha na região metropolitana, envie relato para [email protected].